terça-feira, 1 de julho de 2014

Sempre perdida e nunca encontrada ..


Ela não se sentia errada então porque falavam que ela estava? Então ela deitou em sua cama e começou a olhar para o teto, que no momento não era nada para seu ser que parecia tão insignificante.
Então ela ouviu passos lá fora, sentiu um aperto no coração e se encolheu em seu canto, apertando a si mesma com todas as suas forças...
Tinha medo de tudo que a ferira antes e que agora a atormentava a cada fechar de olhos, a dor que sentia era real demais para si. Ela já não dormia mais porque a cada momento lhe vinham imagens na mente, alguma coisa lá fora ainda a perturbava, a confundia, se sentia estranha, sentia-se como se fosse de plástico e fosse descartável, e era isso o que todos estavam mostrando para ela.
Não podia gritar mais, era calada pelo medo e pelo receio de aqueles que ela queria que a escutassem não escutassem, e então ela trancava a porta com um cadeado feito de desesperanças, mágoas e medo, e guardava a chave dele dentro de seu velho coração. Segurava ao máximo as lágrimas e as engolia tremendo e aquilo afetava cada vez mais seu corpo. Ficou de frente para sua penteadeira de madeira velha e gasta e abriu uma gaveta na qual tinha uma arma, a garota tentava apontá-la para sua própria cabeça porque queria que a dor da morte superasse a dor de seu coração...
Ela olhou para seu reflexo no espelho, seu rosto molhado pelas lágrimas que tinham caído a fizeram quebrar o espelho num impulso, ainda com a arma em sua mão agora ela encarava os cortes que o espelho tinha causado em sua pele fazendo o branco dela se misturar com o vermelho do sangue, deixou a arma cair contra o chão e correu subitamente para o banheiro, enfaixando sua mão com
papel higiênico em um ato desesperado e deixando marcas vermelhas por onde passava , voltou para o quarto em que estava e encarou por vagos minutos a arma caída no chão tão frio, tão só , assim como ela , hesitou em pegá-la por um instante, mas no final tocou a frieza que o objeto lhe passara... Colocou a arma mais uma vez sobre sua cabeça e esperou...
Esse seria o adeus à beleza? Ela se perguntava, porque a vida para ela antes era tão bonita, tão alegre, e foi como se anjos tirassem essa vida levemente dela , como se fosse um leve manto de seda que escapara por seus dedos finos e frágeis.
Ela queria mais, queria que o céu chorasse por ela o mesmo que ela chorou pelo paraíso, mas agora se encontrava em um inferno interminável. Faziam-se várias perguntas antes de dar um último suspiro e criar coragem para se ferir com a arma, mas a frieza da arma ainda a incomodava sabia que nunca deveria ter sentido o toque daquele objeto tão bruto, e parecia que um poder maior, bem maior que ela queria que ela atirasse, afinal estava sozinha, quem iria sentir falta? Tais pensamentos rodavam e rodava por sua mente tão perturbada, ela senta em sua cama, não abrindo mão daquela “roleta-russa”, e olhou fixamente, com o restante de brilho nos olhos, para a janela, fechada e bloqueando qualquer entrada de luz no quarto, sentia medo de abrir a janela, medo de a luz entrar nos seus olhos mais uma vez e conseqüentemente a magoar mais uma vez...
Ela estava apenas carregando o fardo da culpa em suas costas e teve que aprender a conviver com aquilo, pelo menos tentara...
Olhava no quarto e via tudo escuro, as paredes negras, seu corpo trêmulo, os cacos de vidro do espelho no chão
misturados com seu sangue. Ela fechou seus olhos, e sua infância veio a sua mente, tinha todas as memórias de sua inocência, e quando os abriu a imagem de si mesma quando era criança estava na sua frente...
Ela hesita, tenta ir para trás, e a criança chega mais perto dela e tira à arma da mão trêmula da garota, ela ainda assustada com o que tinha acontecido tenta falar, abre a boca, mas era como se tivessem roubado sua voz, estava perplexa, estava encarando o eu que ela tanto escondera há tanto tempo...
A criança se aproxima da menina, segura sua mão firmemente e tira uma caneta do bolso de seu vestido florido. Abre a mão da garota levemente e escreve: Sorria.
Ela ainda confusa não entende o que a criança queria dizer, a criança vaga pelo quarto escuro um pouco iluminando por onde passava, e pega um pedaço de papel... Ela a encara por uns segundos e então a criança começa a escrever,quando termina,dobra o papel e entrega a ela.
Ela abre levemente o papel e lê: Nunca perca sua inocência por mais que ela lhe seja roubada.
Lágrimas começam a correr novamente pelo rosto dela, paralisada com o que tinha lido, encara a arma jogada no chão, encosta nela com o maior cuidado, olha para os cacos no chão, restantes do espelho, ajoelhasse neles e olha seu reflexo distorcido...
Então ela levanta e vai até a janela, em uma mão uma arma e a outra na cortina escura de sua janela, olhava para as duas com dúvida ainda... Olhou para trás e sua inocência já tinha ido embora...
Tinha tanto pelo que viver e tanto pelo que morrer, e a simplicidade de um mero escrito a colocara contra a parede causando mais confusão ainda em sua mente... Ah se ela
pelo menos tivesse um coração, aquele mesmo que fora destruído tempos atrás, ela tanto queria ter dado a todos aqueles que a amavam, mas não sabia como, ninguém tentou ensinar a ela sobre paixão, era só mais uma alma perdida...
Não viveria mais para envergonhar e ferir ninguém , era assim que pensava , abriu a porta do quarto em que se encontrava, saiu daquele espaço e foi para fora, não esquecendo a arma. Então ela se apressa para o bosque, e novamente as lágrimas tocam seu rosto batido pela dor tantas vezes, “tragédias só podem acontecer com dois, e não com um só...” sussurrava para si mesma, arranhava a si mesma, corria por si mesma. Era só ela e mais ninguém, e sabia que não havia ninguém para entendê-la. Tudo o que fizeram foi lhe dar aquela arma.
Enquanto corria pelos bosques escuros sentia a presença da lua, acompanhando cada movimento que ela fazia, cada pensamento, cada fala. A presença da lua fica cada vez mais forte cada vez mais brilhante e tentando refletir nos olhos daquela pobre criança perdida num labirinto que seu próprio medo tinha criado, ela se senta no meio das árvores negras e a escuridão de sua alma se esconde no ambiente... A garota joga a arma para o outro lado do bosque com fraqueza em seus ossos que quase se quebram com a fragilidade que se encontrava em seu corpo, ela deita e começa a olhar para cima, com os mesmos olhos que antes olhavam céus de sol, borboletas e pássaros, e agora enxergavam exatamente o NADA. Poderia realmente ela ser só mais uma criança? Ou apenas alguma criatura que se perdeu nos seus próprios pecados, travava uma batalha a cada segundo contra dois ideais completamente diferentes, tinha perdido sua identidade, não se lembrava de mais do seu nome, ela era uma memória perdida, uma foto rasgada por mãos rudes e que os pedaços foram sendo
queimados pelo fogo que não queima deus algum, mas queimava aquela criatura que antes era amável, porém mortal... Porque os deuses não poderiam passar pelo que estava passando? Logo ela já não tinha mais para quem rezar, então juntou suas mãos com o resto das forças que tinha e começou a rezar para a lua...
Não sabia se era realmente certo aquilo que estava fazendo, mas era o que restava, afinal sentia os longos e gelados dedos daquela que todos falavam, no seu pescoço, a única certeza de sua vida estava atrás dela agora... Ela gritava para a lua: me leve para casa, onde havia luz, ou então me mate logo, me tire essa alma tão decadente e tão mortal! Porque eu caí primeiro? Porque eu não posso levantar? Porque me tornei tão fraca quanto os outros que me feriram? Vi que não basta ter um coração guerreiro... Já não aprendi minha lição? Já não sangrei por todos meus pecados diante de um deus maior?
Conforme gritava isso, os animais naquele bosque iam se afastando, ela então sente um ar gelado em seu pescoço e começa a correr, não sabia como fugir daquilo... Era uma coisa mais forte que ela, “Porque eu caí primeiro?” ficava repetindo para si mesma. A noite nunca acabava para ela, não, não para aquele coração cansado. Logo a frente ela avista um lago, ela para e encara o reflexo daquela que tinha recebido sua prece na água e se aproxima da imagem, passa seus dedos levemente pela água e então a imagem fica mais turva do que estava, tudo ao seu redor era negro como no bosque, até as águas... Filha do oceano e da lua, tão melancólica e quebrada quanto uma boneca antiga, passava a mão na água levemente e passava em seu rosto para tentar conter as lágrimas, sua pobre alma agora tocava a frieza da natureza, sempre perdida e nunca encontrada.

Um comentário:

  1. Gostei do texto, é seu mesmo? Parabéns!
    http://www.annacaarol.blogspot.com.br

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